sábado, 11 de julho de 2009

Felicidade para todos


A satisfação de uma pessoa, ou dos habitantes de um país, depende do contentamento que se tem em nove áreas diferentes. Esse cálculo, que produz o índice de Felicidade Interna Bruta (FIB), já está sendo usado para orientar políticas públicas, empresariais e até pessoais


Liane Alves


Você tem ideia do quanto é feliz, ou por que não é? Pouca gente sabe responder isso de bate-pronto. Mas as mesmas perguntas que podem ser usadas para avaliar a satisfação de uma pessoa também servem para medir a felicidade dos funcionários de uma empresa, dos habitantes de uma cidade ou da população de um país. Ciente da importância de ter súditos felizes, Jigme Singye Wangchuck, o rei do Butão, criou há mais de 30 anos um índice de desenvolvimento social baseado em pesquisas que procuram mapear o que pode trazer felicidade para seu povo. O FIB, ou Felicidade Interna Bruta, tornou-se então o fator determinante na aplicação das políticas governamentais desse minúsculo reino de orientação budista entre a China e o Tibete.

Essa criativa experiência começa a render frutos. Prefeitos de algumas cidades do mundo (inclusive do Brasil), presidentes de instituições ou mesmo pessoas comuns estão dispostos a imitar esse simpático e bem-sucedido exemplo. O Brasil sediará em novembro o próximo Encontro Internacional sobre Felicidade Interna Bruta-FIB, com a provável presença do rei butanês, um jovem de 27 anos, herdeiro do rei que implantou o FIB. Diz o ministro de Planejamento do Butão, Dasho Karma Ura, que veio a São Paulo em outubro do ano passado para falar da experiência de seu país. "As pessoas sempre podem se tornar mais felizes. Um bom começo é procurar detectar com minúcias o que nos traz felicidade - e o que nos causa sofrimento". Algo em que, ironicamente, sequer paramos para pensar.

O MUNDO MUDA

O Butão, um reino fechadíssimo ao mundo contemporâneo, tem o tamanho aproximado do estado do Rio de Janeiro, 600000 habitantes e regiões com climas variados, do calor úmido de suas florestas tropicais até o gélido inverno da sua capital, Thimpu, a quase 4000 metros de altitude. Tem 72% do seu território preservado e 28% dele é considerado santuário ecológico. Isto é, o país inteiro é ambientalmente protegido. Mas não é por sua beleza natural ou pela índole pacífica de seus habitantes que o Butão se tornou mundialmente conhecido. Desde a implantação do FIB, o país se transformou numa espécie de laboratório onde se gestam possíveis rumos para o futuro da humanidade. Para concretizar esse sonho, o Centro de Estudos do Butão reuniu especialistas de vários países para encontrar os critérios que determinam a satisfação com a vida e um alto índice de bem-estar físico e psicológico. Realizaram-se diversos estudos e chegou-se aos nove indicadores que compõem o FIB atualmente. Esses parâmetros mais gerais foram, por sua vez, subdivididos em 73 itens, para responder com mais precisão aos anseios do povo. O resultado: o nascimento de um país economicamente viável, socialmente justo e ecologicamente correto. Uma conferência em junho de 2008 foi organizada para se repensar a definição de progresso e nela índices como o PIB, que hoje norteiam as decisões de políticas governamentais, foram duramente criticados (o PIB leva em conta a soma de bens e serviços produzidos em uma região durante um período determinado). Esse índice está cada vez mais relativizado por outros indicadores, como o IDH, que mede o índice de qualidade de vida, incluindo a educação e a expectativa de vida como fatores de desenvolvimento, e o FIB. Sinal de que o mundo está mudando. A conferência foi patrocinada por instituições de peso, como a ONU, o Banco Mundial, a Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD), a Federação Islâmica e a União Europeia. "As Nações Unidas estão cada vez mais interessadas em internacionalizar o FIB", diz Michael Pennock, economista canadense especializado em políticas públicas. Pennock adaptou para o mundo ocidental as perguntas do questionário butanês, hoje disponíveis no site do Centro de Estudos do Butão para serem utilizadas por qualquer país. Ele também é um dos responsáveis pela aplicação do questionário do FIB em sua cidade, Victoria, no Canadá. "A ideia é aplicar o FIB localmente, para que, com o sucesso obtido, o índice posteriormente possa ser usado como referência para as políticas públicas governamentais", afirma.

FUTURO MELHOR

De acordo com Susan Andrews, idealizadora da ecovila Visão Futuro, situada perto de São Paulo, e coordenadora da FIB no Brasil, a ONU pretende, depois de concluídas as Metas do Milênio, em 2015, adotar os indicadores do FIB como o novo desafio para a humanidade. "Não existe ideia mais bem-sucedida que aquela para a qual o tempo chegou", diz a psicóloga e antropóloga formada em Harvard e há 30 anos no Brasil. "A frase é do escritor Victor Hugo e sintetiza bem a urgência na aplicação do FIB como um indicativo propiciador de novas realidades futuras", diz. "Sempre se apostou na riqueza material como situação ideal para o surgimento da felicidade. A ideia de ‘quanto mais, melhor’ chegou à exaustão." Susan enfatiza: "Hoje nos Estados Unidos as pessoas andam 25 vezes mais de avião que há 40 anos. O número de carros por habitante dobrou, o PIB triplicou. Mas pesquisas mostram que uma entre quatro pessoas se declara muito infeliz. O número de suicídios quadruplicou." Susan acredita que o Brasil tem condições para se tornar o primeiro país do mundo (fora o Butão) a adotar oficialmente o FIB como índice de desenvolvimento social. Sem dúvida, seria um grande teste para o FIB. O Butão é pequeno, fechado (a televisão só entrou ali em 1999, por exemplo) e norteado pela cultura budista. Mas será que o índice funcionaria por aqui? No Brasil, um protótipo de FIB foi colocado em prática em abril de 2008, em Angatuba, a 181 km de São Paulo. Na capital paulista, a ideia já conquistou um primeiro defensor: o secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge, que propõe ainda este ano iniciar pesquisas de medição do FIB em subprefeituras da capital. "O ideal seria começar numa subprefeitura central, como Pinheiros, e em outra periférica, como Parelheiros", afirma.

RETRATO DA ALMA

As pesquisas sobre o FIB traçam um complexo estudo sobre a psique humana. Os primeiros questionários aplicados eram tão ricos em detalhes que levavam cerca de oito horas para serem respondidos. "Diferentemente dos índices econômicos tradicionais, o FIB inclui também questões inteiramente subjetivas, como taxas de emoções negativas e positivas da população, avaliação da saúde mental, social e espiritual dos habitantes ou possíveis causas geradoras de estresse", diz Karma Ura. Além disso, os nove itens têm o mesmo peso no cômputo total, além de se relacionarem entre si (o que os técnicos chamam de transversalidade). A consequência disso é que, por exemplo, não se prioriza o bem-estar material sem se levar em conta seu custo ambiental. "O sucesso em uma dimensão da felicidade pode acarretar o fracasso em outra. Por isso, todos os níveis são considerados iguais e interdependentes", afirma Ura. "É essa integração que garante a visão de totalidade e o bom êxito das políticas públicas." Além disso, mede-se a importância de valores culturais, sociais e espirituais. Aí, é claro, as respostas variam de país para país. Num reino de influência budista como o Butão, valores como "prazer" e "liberdade" podem ser menos importantes do que numa sociedade ocidental. Já o exercício da compaixão ou de práticas como a meditação e a prece têm um peso muito grande. "O mais importante", diz Ura, "é que todos essas variáveis sejam levadas em conta."

O QUE É AVALIADO

Mesmo num país de orientação budista, o bem-estar material está na base de tudo. É difícil ser feliz com o estômago vazio e sem um teto seguro. Mas a conquista da riqueza material - e esse é o segredo da interdependência dos itens - não pode afetar a saúde física ou emocional, comprometer o uso equilibrado do tempo ou interferir no tempo dedicado às práticas espirituais (incluídas no subitem "saúde espiritual"). "Chegamos à conclusão de que seis horas de trabalho são suficientes para manter ativa a economia do país sem prejudicar as atividades individuais das pessoas. Assim, elas têm tempo para dormir as horas de sono de que precisam, socializar-se com a família e com a comunidade ou exercitar-se fisicamente", diz o ministro butanês. As atividades econômicas, mesmo que rentáveis, também não podem prejudicar o meio ambiente ou causar danos sociais. "As pessoas se mantêm felizes quando há um equilíbrio entre todos os campos", diz Karma Ura. Michael Pennock relata, por exemplo, que ao se priorizar demais a área da saúde no Canadá, com implantação de hospitais, ampliação do número de médicos e distribuição gratuita de remédios, as pessoas passaram a ficar mais doentes. "Isso porque diminuiu a criação de novos parques dedicados ao lazer, de espaços para atividades físicas ou de cursos educativos que estimulam a boa alimentação, todos setores promotores de saúde física e psicológica", afirma. "Não adianta, as políticas públicas só funcionam bem quando estão integradas." As nove dimensões da felicidade de um país estão contidas nos seguintes itens:

1. Padrão de vida econômica

2. Educação de qualidade

3. Saúde

4. Expectativa de vida e atividade comunitária

5. Proteção ambiental

6. Acesso à cultura

7. Bons critérios de governança

8. Gerenciamento equilibrado do tempo

9. Bem-estar psicológico

Um ponto extremamente importante: os dados do FIB são constantemente atualizados. Assim é possível observar se as medidas adotadas em cima dos índices anteriores efetivamente surtiram efeito. Se elas funcionaram, as pessoas se tornam mais felizes. Simples assim. Uma boa providência. Atualizar o que nos traz felicidade, e ver se ela está aumentando ou diminuindo ao longo do tempo e de nossas experiências, é algo que todos nós podemos fazer, inclusive pessoalmente. Se o índice de felicidade estiver diminuindo, ou se não há um equilíbrio entre as diversas áreas da vida, é melhor agir. E rápido. Em outra direção.