terça-feira, 7 de abril de 2009

Dilma não participou de ações militares

Na íntegra a carta do jornalista Antonio Roberto Espinosa, encaminhada à redação da Folha de S. Paulo, em protesto à distorção de suas palavras pelo jornal, em entrevista publicada no último domingo (05.04). Em sua resposta, Espinosa mostra, claramente, como a Folha distorce e manipula os fatos para prejudicar a ministra Dilma Rousseff. Confira:"À coluna Painel do Leitor

Prezados senhores,Chocado com a matéria publicada na edição de hoje (domingo, 5), páginas A8 a A10 deste jornal, a partir da chamada de capa "Grupo de Dilma planejou seqüestro de Delfim Neto", e da repercussão da mesma nos blogs de vários de seus articulistas e no jornal. Agora, do mesmo grupo, solicito a publicação desta carta na íntegra, sem edições ou cortes, na edição de amanhã, segunda-feira, 6 de abril, no "Painel do Leitor" (ou em espaço equivalente e com chamada de capa), para o restabelecimento da verdade, e sem prejuízo de outras medidas que vier a tomar. Esclareço preliminarmente que:
1) Não conheço pessoalmente a repórter Fernanda Odilla, pois fui entrevistado por ela somente por telefone. A propósito, estranho que um jornal do porte da Folha publique matérias dessa relevância com base somente em "investigações" telefônicas;
2) Nossa primeira conversa durou cerca de 3 horas e espero que tenha sido gravada. Desafio o jornal a publicar a entrevista na íntegra, para que o leitor a compare com o conteúdo da matéria editada. Esclareço que concedi a entrevista porque defendo a transparência e a clareza histórica, inclusive com a abertura dos arquivos da ditadura. Já concedi dezenas de entrevistas semelhantes a historiadores, jornalistas, estudantes e simples curiosos, e estou sempre disponível a todos os interessados;
3) Quem informou à Folha que o Superior Tribunal Militar (STM) guarda um precioso arquivo dos tempos da ditadura fui eu. A repórter, porém, não conseguiu acessar o arquivo, recorrendo novamente a mim, para que lhe fornecesse autorização pessoal por escrito, para investigar fatos relativos à minha participação na luta armada, não da ministra Dilma Rousseff. Posteriormente, por e-mail, fui novamente procurado pela repórter, que me enviou o croquis do trajeto para o sítio Gramadão, em Jundiaí, supostamente apreendido no aparelho em que eu residia, no bairro do Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro. Ela indagou se eu reconhecia o desenho como parte do levantamento para o seqüestro do então ministro da Fazenda Delfim Neto. Na oportunidade disse-lhe que era a primeira vez que via o croquis e, como jornalista que também sou, lhe sugeri que mostrasse o desenho ao próprio Delfim (co-signatário do Ato Institucional número 5, principal quadro civil do governo ditatorial e cúmplice das ilegalidades, assassinatos e torturas).
Afirmo publicamente que os editores da Folha transformaram um não-fato de 40 anos atrás (o seqüestro que não houve de Delfim) num factóide do presente (iniciando uma forma sórdida de anticampanha contra a Ministra). A direção do jornal (ou a sua repórter, pouco importa) tomou como provas conclusivas somente o suposto croquis e a distorção grosseira de uma longa entrevista que concedi sobre a história da VAR-Palmares. Ou seja, praticou o pior tipo de jornalismo sensacionalista, algo que envergonha a profissão que também exerço há mais de 35 anos, entre os quais por dois meses na Última Hora, sob a direção de Samuel Wayner (demitido que fui pela intolerância do falecido Octávio Frias a pessoas com um passado político de lutas democráticas).

A respeito da natureza tendenciosa da edição da referida matéria faço questão de esclarecer:
1) A VAR-Palmares não era o "grupo da Dilma", mas uma organização política de resistência à infame ditadura que se alastrava sobre nosso país, que só era branda para os que se beneficiavam dela. Em virtude de sua defesa da democracia, da igualdade social e do socialismo, teve dezenas de seus militantes covardemente assassinados nos porões do regime, como Chael Charles Shreier, Yara Iavelberg, Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Fernando Ruivo e Carlos Alberto Soares de Freitas. O mais importante, hoje, não é saber se a estratégia e as táticas da organização estavam corretas ou não, mas que ela integrava a ampla resistência contra um regime ilegítimo, instaurado pela força bruta de um golpe militar;

Dilma Rousseff
2) Dilma Rousseff era militante da VAR-Palmares, sim, como é de conhecimento público, mas sempre teve uma militância somente política, ou seja, jamais participou de ações ou do planejamento de ações militares. O responsável nacional pelo setor militar da organização naquele período era eu, Antonio Roberto Espinosa. E assumo a responsabilidade moral e política por nossas iniciativas, denunciando como sórdidas as insinuações contra Dilma;
3) Dilma sequer teria como conhecer a idéia da ação, a menos que fosse informada por mim, o que, se ocorreu, foi para o conjunto do Comando Nacional e em termos rápidos e vagos. Isto porque a VAR-Palmares era uma organização clandestina e se preocupava com a segurança de seus quadros e planos, sem contar que "informação política" é algo completamente distinto de "informação factual". Jamais eu diria a qualquer pessoa, mesmo do comando nacional, algo tão ingênuo, inútil e contraproducente como "vamos seqüestrar o Delfim, você concorda?". O que disse à repórter é que informei politicamente ao nacional, que ficava no Rio de Janeiro, que o Regional de São Paulo estava fazendo um levantamento de um quadro importante do governo, talvez para seqüestro e resgate de companheiros então em precárias condições de saúde e em risco de morte pelas torturas sofridas. A esse propósito, convém lembrar que o próprio companheiro Carlos Marighela, comandante nacional da ALN, não ficou sabendo do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Por que, então, a Dilma deveria ser informada da ação contra o Delfim? É perfeitamente compreensível que ela não tivesse essa informação e totalmente crível que o próprio Carlos Araújo, seu então companheiro, diga hoje não se lembrar de nada;
4) A Folha, que errou a grafia de meu nome e uma de minhas ocupações atuais (não sou "doutorando em Relações Internacionais", mas em Ciência Política), também informou na capa que havia um plano detalhado e que "a ação chegou a ter data e local definidos". Se foi assim, qual era o local definido, o dia e a hora? Desafio que os editores mostrem a gravação em que eu teria informado isso à repórter;
5) Uma coisa elementar para quem viveu a época: qualquer plano de ação envolvia aspectos técnicos (ou seja, mais de caráter militar) e políticos. O levantamento (que é efetivamente o que estava sendo feito, não nego) seria apenas o começo do começo. Essa parte poderia ficar pronta em mais duas ou três semanas. Reiterando: o Comando Regional de São Paulo ainda não sabia com certeza sequer a freqüência e regularidade das visitas de Delfim a seu amigo no sítio. Depois disso seria preciso fazer o plano militar, ou seja, como a ação poderia ocorrer tecnicamente: planejamento logístico, armas, locais de esconderijo etc. Somente após o plano militar seria elaborado o plano político, a parte mais complicada e delicada de uma operação dessa natureza, que envolveria a estratégia de negociações, a definição das exigências para troca, a lista de companheiros a serem libertados, o manifesto ou declaração pública à nação etc. O comando nacional só participaria do planejamento, portanto, mais tarde, na sua fase política. Até pode ser que, no momento oportuno, viesse a delegar essa função a seus quadros mais experientes, possivelmente eu, o Carlos Araújo ou o Carlos Alberto, dificilmente a Dilma ou Mariano José da Silva, o Loiola, que haviam acabado de ser eleitos para a direção; no caso dela, sequer tinha vivência militar;
6) Chocou-me, portanto, a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal - apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário. Prova disso é que nenhum de nós foi incriminado por isso na época pelos oficiais militares e delegados dos famigerados DOI-CODI e DEOPS e eu não fui denunciado por qualquer um dos três promotores militares das auditorias onde respondi a processos, a Primeira e a Segunda auditorias de Guerra, de São Paulo, e a Segunda Auditoria da Marinha, do Rio de Janeiro.
Osasco, 5 de abril de 2009.
"Antonio Roberto Espinosa é jornalista, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela USP, autor de Abraços que sufocam - E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe."

Lula pede e Marta vai liderar campanha de Dilma em SP



ANNE WARTH - Agencia Estado

SÃO PAULO - A ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy (PT) disse hoje que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lhe pediu que assumisse uma postura de liderança na preparação da campanha à Presidência em 2010 da virtual candidata e ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Marta já teve papel semelhante ao coordenar a campanha pela reeleição do presidente Lula em São Paulo, em 2006. Segundo ela, o trabalho já tem sido feito junto às bases do partido no Estado e aos novos filiados.

“Foi um convite do presidente também ao João Paulo (ex-prefeito de Recife) e ao Fernando Pimentel (ex-prefeito de Belo Horizonte) para que assumíssemos uma postura de liderança. Tenho conversado e trabalhado junto com o PT e com o Edinho Silva (presidente estadual da legenda) e estamos caminhando bem. Vamos ter agora grandes eventos no Estado e espero que a militância do PT compareça”, disse ela, após participar do debate O Brasil Diante da Crise Mundial, na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Embora cada vez mais exerça um papel de destaque no governo Lula e seja a coordenadora do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Pacote Nacional de Habitação (Minha Casa, Minha Vida), a eventual candidatura da ministra não foi assumida oficialmente nem por Dilma nem pelo presidente Lula. “Pessoalmente, tenho feito um trabalho de base. Nesta semana, estive em Suzano e em Jandira. É um trabalho de militância mesmo, pé no barro. Eu gosto disso e estou tendo prazer em fazer”, afirmou.

Marta, que deixou o cargo de ministra do Turismo para concorrer no ano passado às eleições para a Prefeitura da capital paulista, na qual foi derrotada pelo atual prefeito Gilberto Kassab (DEM), disse que assumir a função de coordenar a pré-campanha de Dilma em São Paulo só foi possível porque ela não está exercendo nenhum cargo no Executivo ou no Legislativo.
“Estou fazendo um trabalho de base, com o povo mesmo e com os novos filiados que estão entrando. Explico o porquê da nossa candidata, o que é o PT e o nosso governo. Estou gostando de fazer porque estive por muito tempo em cargos que não me permitiam isso. É muito bom voltar às bases, amassar barro. Estou gostando”, afirmou.

Palocci

Marta disse também que apoia a candidatura do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci para o governo de São Paulo em 2010. Na avaliação dela, Palocci, atualmente deputado federal pelo PT em São Paulo, é o melhor nome da legenda para o cargo. “É o que mais agrega. É um nome de consenso no partido. Os outros postulantes não são postulantes caso ele seja o candidato”, afirmou. “Sua experiência nacional, maturidade, capacidade de articular e bom relacionamento com todas as classes sociais fazem com que ele seja, neste momento, o candidato mais adequado para o Estado de São Paulo.”

Palocci, que falou no evento sobre a economia brasileira e os impactos da crise financeira internacional no País, deixou a Assembleia às pressas e respondeu a poucas perguntas dos jornalistas. Questionado sobre a candidatura ao governo de São Paulo, ele respondeu que ainda é cedo para haver discussões conclusivas sobre o assunto. “É normal que o partido debata, mas a escolha do candidato no PT é só no ano que vem”, respondeu.
“Não vou dizer que nunca passou pela minha cabeça”, disse Palocci, que já foi prefeito de Ribeirão Preto. Questionado sobre se está preocupado com o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) do caso de quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, respondeu: “Não, estou aguardando”.